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VIDA LONGA AOS PNEUS
O título de grande vilão ambiental de nosso século vai para os pneus inutilizados, notórios contribuintes da poluição urbana, além de moradia de mosquitos transmissores de várias doenças. Enquanto se formam montanhas desse material nos lixões ou às margens de córregos, pesquisadores não têm poupado esforços em busca de métodos para seu reaproveitamento, o que poderia minimizar os impactos ambientais. Uma das soluções desenvolvidas pelo professor Ennio Marques Palmeira, do programa de pós-graduação em Geotecnia, da Universidade de Brasília, é a tecnologia Drenopet. Ela substitui a brita dos pavimentos por pneu picado e garrafa de refrigerante, envolvidos por um material geosintético.
“Aqui em Brasília, o custo de materiais naturais de drenagem como brita e areia é muito elevado. É necessário retirá-los de jazidas, o que de certa maneira também degrada o meio ambiente”, justifica o professor. Ele explica que, quando colocado na lateral da rua, o Drenopet impede que a água da chuva se acumule no asfalto. Como a brita, o material apresenta característica drenante, ou seja, permite que a água siga o caminho do escoamento. Engenheiro civil formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com doutorado em Oxford, na Inglaterra, e pós-doutorado na British Columbia, no Canadá, Palmeira tem reconhecimento internacional por suas pesquisas. Em 1996 e 2004, recebeu o Prêmio da Sociedade Internacional de Geosintéticos.
Segundo o engenheiro, no Exterior as questões relacionadas à reciclagem são levadas mais a sério. “Em geral, são países que têm mais problemas de espaço. Há mais dificuldades para dispor de lixo e resíduos, enquanto precisam minimizar a quantidade que produzem. Sempre procurar dar uma nova destinação”, observa. Nesses países, a legislação ambiental é muito mais rigorosa que no Brasil. “Por isso, qualquer tecnologia que reaproveite pneu ou plástico de maneira geral, não só a garrafa Pet, desperta muito interesse”, acrescenta.
Neste mês, durante um congresso realizado no País de Gales, o professor vai apresentar um trabalho sobre a tecnologia que utiliza garrafas plásticas e pneu picado em sistemas de drenagem. “Eu não estranharia se outras pessoas estivessem fazendo estudos semelhantes. Em países asiáticos, no Canadá e na própria Inglaterra, têm se reaproveitado pneu também como elemento drenante. O Pet é um material mais nobre que o pneu para esse tipo de utilização; ele pode ser utilizado como garrafa. Mas não há uma indústria desse reaproveitamento e as garrafas acabam no lixo”, aponta.
Bate e volta
Em São Paulo, a mesma solução, da substituição de parte da brita por borracha de pneus triturada, foi desenvolvida pelo Instituto Via Viva sob o nome de Concreto DI (Deformável e Isolante). A entidade é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), idealizada pela Associação para Valorização e Promoção de Excepcionais e pela Monobeton. Esta empresa, que desenvolve soluções tecnológicas para a construção civil, é formada por um grupo multidisciplinar, composto por profissionais das áreas médica, tecnológica, ambiental, jurídica e social.
A idéia surgiu com a finalidade de diminuir as conseqüências de acidentes de trânsito e contribuir para a conservação do ambiente. O engenheiro Paulo Bina, vice-presidente do Via Viva, revela que com a adição da borracha em sua estrutura, a barreira deixa de ser um bloco rígido para ser semideformável. “O veículo, ao bater no Concreto DI, volta para a pista com uma velocidade reduzida. Isso traz menos danos físicos e materiais. A borracha trabalha dentro daquilo que ela tem de melhor, que é a capacidade de se deformar sem se romper”, expõe.
Além da aplicação em barreiras rodoviárias, o engenheiro esclarece que os agregados de borracha podem ser utilizados em pisos, dormentes, calçadas, pavimentação de ruas e estradas e até paisagismo, uma tendência ainda pouco explorada. Segundo ele, ao se diversificar o tamanho dos blocos de borracha e mudar as quantidades, é possível fazer variações muito interessantes do concreto.
“Pode se obter resultados de características do composto com maior deformabilidade, por exemplo, adequado para pisos de calçadas e pistas. Isso porque a borracha dá ao concreto essa capacidade de se acomodar conforme o próprio solo em que ele está apoiado”, esclarece Bina. Dois trechos dessas barreiras rodoviárias estão em fase de testes, em São Paulo. Um na Rodovia Raposo Tavares e outro na Marginal do Tietê. “Para os próximos três anos, o Instituto Via Viva deverá atender a uma demanda de3200 quilômetros de barreiras em Concreto DI nas rodovias paulistas”, prevê.
O engenheiro reforça que, de acordo com a região, o Concreto DI é uma opção mais econômica em relação ao concreto tradicional. Onde há empresas de reciclagem de pneus, por exemplo, a cidade de São Paulo, é possível negociar a borracha a preços muito competitivos. Como a pedra, o agregado de borracha é extremamente sensível a frete. “Com toda certeza, para regiões urbanas onde há um volume maior de pneumáticos, de automóveis, se comparadas com a zona rural, a tendência é de os preços serem mais competitivos. Mas isso ainda não é uma regra”, frisa.
O projeto, além de ser uma alternativa que dá um destino ecologicamente adequado para a borracha, objetiva a inclusão social, ou seja, gerar emprego e renda para portadores de necessidades especiais. “Desde o primeiro instante, o objetivo foi dar uma solução técnica, ambiental e social. Esse é o grande mérito de todo processo: dar uma destinação para um produto que em algum ponto vai ser recolhido por pessoas com necessidades especiais. Elas terão emprego e renda”, afirma Bina.
O Instituto pretende criar e gerenciar estações de coleta e batizados de ecopontos Via Viva, que serão operadas por portadores de necessidades especiais. “Teremos Ecopontos na região do ABC e na Baixada Santista. No momento estão sendo acertados acordos com prefeituras e Organizações Não-Governamentais para fazer esse trabalho”, finaliza o engenheiro.
Pneu sob pneu
Entre as alternativas que visam minimizar o acúmulo de pneus inutilizados,
destaque para o uso do material na composição do asfalto. O
denominado asfalto-borracha vem sendo implantado pela concessionária
Ecovias, desde 2002, em trechos experimentais do Sistema Anchieta-Imigrantes
(SAI). Diante dos resultados positivos, a concessionária utilizará o
produto no programa de recuperação das rodovias do Sistema.
Este ano serão destinados R$49 milhões para recapeamento de
191 quilômetros de pistas. Desse total, 146 quilômetros receberão
uma camada adicional de asfalto-borracha.
A previsão é de que sejam absorvidos entre 60 e 70 mil pneus
inutilizados. Para se ter uma idéia, uma faixa de rolamento de um
quilômetro coberta com asfalto-borracha utiliza 400 a 500 pneus. Esse
tipo de pavimentação é de 40% mais resistente e 30%
mais caro que o asfalto convencional. Porém, é menos sujeito
a trincas e deformações e atende à política de
preservação da concessionária, ao colaborar com a redução
do passivo ambiental. O Sistema liga a Capital ao Litoral Paulista.
Fonte: Revista Veja
(07 de junho de 2006)