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EFLUENTES INDUSTRIAIS: CRESCE O INTERESSE PELO REUSO

Seja por imposição das certificações ISO 14.000 dentro das fábricas, ou até mesmo por um controle mais rigoroso por parte dos órgãos ambientais quanto à qualidade do lançamento de rejeitos em corpos d'água, o fato é que hoje as empresas estão se preocupando cada vez mais com o tipo de água que pode ser lançada fora. E a evolução da qualidade conseguida nas Estações de Tratamento de Efluentes vem gerando maior conscientização em relação ao desperdício que representa descartar qualquer água depois do tratamento recebido. Com isso, as empresas começam a descobrir alternativas de uso dentro de seus próprios sistemas industriais, aplicando essa água, por exemplo, no resfriamento de caldeiras ou na lavagem de peças, pátios, descargas, entre inúmeros outros usos.

Ainda assim, apenas 1% de toda a água consumida no Brasil é reutilizada. Esse índice cai para zero quando se fala em reuso de água dentro dos municípios.

A partir do segundo semestre de 2004, o desenvolvimento e a difusão de tecnologias para a reutilização de efluentes industriais e esgotos começaram a ser debatidas no Centro Internacional de Referência em Reuso da Água (Cirra), abrigado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e a Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica. O centro oferece aos interessados um banco de dados para consultas via internet (no endereço www.usp.br/cirra) e tem por objetivo divulgar informações para estimular o reaproveitamento das águas servidas como forma de diminuir a crise de escassez de água, que no Brasil ainda é quase desconhecida.

Coca-cola foi uma das pioneiras

Para evitar o desperdício, reduzir os custos e preservar o meio ambiente, a Coca-cola implantou há dez anos, em suas 36 fábricas, o Programa Água Limpa, que definiu uma série de procedimentos para otimizar o uso da água, minimizar o consumo e a descarga de efluentes, além de incorporar equipamentos e processos para elevar o aproveitamento destes recursos. Segundo explica José Mauro de Moraes, Diretor de Meio Ambiente da Coca-cola Brasil, o programa faz parte do Sistema de Gestão Ambiental da companhia e tem como ponto principal a economia de água.

Com as medidas tomadas, a Coca-cola conseguiu, em 10 anos, uma redução de sete bilhões de litros no consumo de água na produção de bebidas.

Mas, para o diretor, a redução conseguida não pode ser considerada satisfatória ainda. "É uma média, o que significa que alguns fabricantes estão um pouco acima desse índice e outros abaixo". Para tanto, o diretor confirma que serão necessários investimentos, além de algumas adaptações nos processos industriais das fábricas.

O uso de garrafas retornáveis exige maior volume de água, especialmente durante o enxágüe dos vasilhames.

Para que o consumo de água seja cada vez mais reduzido, é preciso reaproveitar a água de maneira mais eficiente. Moraes conta que, no ano passado, a água resultante da rinsagem das garrafas PET era descartada. Hoje a empresa já encaminha essa água para novo tratamento ou então realiza a enxagüagem através de ar comprimido, opção que demanda maior consumo de energia.

Para "fins menos nobres" a Coca-cola está estudando atualmente outras fontes de água, como a da chuva, por exemplo. "A água de chuva tem uma qualidade muito boa, embora não possa ser considerável potável, já que não passou por nenhum tipo de tratamento", diz Moraes. O diretor informa que essa água poderá vir a ser empregada em diversas funções, desde que se mantenha um controle rigoroso da mesma.

Outro fator de preocupação da Coca-cola, além do consumo industrial de água, é o consumo verificado nos prédios administrativos. No edifício-sede, localizado na Praia do Botafogo (RJ), os funcionários gastavam quantidades razoáveis de água. O consumo atual é de 70 litros de água por funcionário por dia - há dois anos, cada um dos cerca de 600 funcionários, entre contratados e terceirizados, consumiam o equivalente a 85 litros de água por dia. Para reduzir esse volume, a Coca-cola investiu cerca de R$50 mil em medidas que incluem a instalação de hidrômetros em linhas separadas, com o propósito de identificar onde a empresa estava gastando mais água. Os "vilões do desperdício" foram o sistema de ar-condicionado e os banheiros. Para minimizar o consumo do ar-condicionado, a empresa optou por desligar os equipamentos no período noturno e, para reduzir o consumo dos banheiros, a Coca-cola instalou células fotoelétricas nos mictórios, torneiras de pressão nos lavatórios e está trocando as descargas por modelos mais novos, que utilizam apenas seis litros de água por descarga. "Agora estamos estudando a possibilidade de coletar água de chuva para fazer a refrigeração das torres de ar-condicionado", informa Moraes.

Além das medidas de minimização e conservação dos recursos hídricos e tratamento da água usada, para devolve-la à natureza livre de resíduos, o Sistema Coca-cola Brasil informa que atua segundo os preceitos da Política Nacional de Recursos Hídricos. Toda a água utilizada pelas fábricas da Coca-cola, antes de ser devolvida aos corpos hídricos, passa por uma Estação de Tratamento de Efluentes (ETE), que utiliza equipamentos de tratamento biológico, filtragem, separação, reação biológica, desinfecção e aquários para peixes.

Volkswagen Taubaté

Entre 2002 e 2004, a fábrica da Volkswagen do Brasil em Taubaté (SP) reduziu em 45% seu consumo mensal de água, depois que implantou o Sistema de Gestão Ambiental e recebeu o certificado de qualidade ISO 14001 (abril de 2002). Com isso, a unidade industrial liberou uma grande quantidade de água tratada, retirada dos mananciais, para o consumo da população e o crescimento do Vale do Paraíba. Segundo informações do Departamento de Comunicação da montadora, a economia da água e de outros insumos deveu-se a uma série de medidas de aperfeiçoamento na gestão ambiental, como a proposta do mecânico de manutenção Isael Claudino, que sugeriu a instalação de uma canaleta de retenção e reaproveitamento de água nas cabines de pintura.

A Volks esclarece que, desde o início das operações da fábrica, em 1976, toda água utilizada pela montadora em Taubaté passa por tratamento e retorna limpa ao meio ambiente.

 



Fonte: Revista Saneamento Ambiental
(Janeiro/ Fevereiro de 2005)