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TESE PROPÕE SOLUÇÃO PARA O PROBLEMA DO DESCARTE DE PNEUS

Na resolução nº 258/99 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), o governo federal determina que fabricantes e importadores recolham e dêem um fim ambientalmente adequado aos pneus que comercializam no país, inclusive de bicicletas. Como um fim adequado, entenda-se o reaproveitamento dos pneus nas variadas formas possíveis, contribuindo para evitar a degradação da natureza e a proliferação de vetores de doenças como a dengue e a febre amarela.

Entretanto, a lei pode ser cumprida recolhendo-se os pneus velhos que os motoristas deixam nos revendedores, enquanto, para o poder público, continuam sobrando os pneus jogados a esmo no ambiente. O pneu não se decompõe naturalmente.

Quando depositado em aterros, as camadas de ar pressionam até que aflore à superfície. Quando queimado, libera gases poluentes. As soluções atuais são para quantidades relativamente pequenas. Uma dissertação de mestrado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), apresentou uma metodologia para o gerenciamento de pneus inservíveis, justamente à época em que a resolução do Conama foi editada. A adoção de critérios sugeridos neste estudo permitiria a prefeituras e fabricantes mapear os pontos de descarte de pneus - resíduo, estimar quantidades, organizar a coleta e selecionar modos de reciclagem, conforme o mercado.

Enquanto alternativas já conhecidas de reciclagem de pneus são colocadas em prática, pesquisadores da Unicamp e de outras instituições seguem misturando novas fórmulas que minimizem este impacto ambiental. De pneus triturados e da borracha regenerada com a adição de produtos químicos, obtêm-se pastas e resíduos que servem para a produção, por exemplo, de tapetes de automóveis, artefatos de vedação e amortecimento, solados de sapatos, pisos industriais e argamassas para construção. Pneus inteiros são amarrados para a contenção de encostas, canalização de córregos, drenagem de gases em aterros sanitários e simulação de recifes em benefício da indústria pesqueira. Pneus velhos, também, geram energia, substituindo com vantagens o carvão em fornos industriais. "A coqueluche do momento é o uso de resíduos de pneus no asfalto, tornando-o mais flexível e resistente", acrescenta a pesquisadora da FEC.

Recauchutados - Existem pontos de despejo onde ocorre a queima de pneus, com emissão de dióxido de enxofre. Nas estradas, descarregam pneus até de caminhões, mas eles não permanecem no local por muito tempo. Provavelmente, catadores passam em seguida recolhendo tudo. Na época, um pneu que permitia recauchutagem valia entre 3 e 5 reais junto ao reformador. Este comércio de recauchutados não deixa de ser profícuo. Nas últimas décadas, a melhoria das técnicas de manufatura permitiu aumentar consideravelmente a vida útil dos pneus, tanto que a recauchutagem é uma prática em 70% da frota de transporte de cargas e passageiros no Brasil.

Ganha-pão - Há vários obstáculos para que os pneus descartados se tornem uma alternativa de renda importante, como são as latinhas de alumínio. A própria trituração para reuso da borracha é complicada, exigindo equipamentos pesados. As latinhas possuem um valor agregado muito maior, os pneus velhos são doados. Se as indústrias de reciclados tiverem de pagar pelo material, será o mínimo. Campanhas semelhantes às de limpeza de praias e de rios, embora importantes do ponto de vista ambiental, são muito esporádicas e a coleta é insuficiente para alimentar uma indústria. As associações de bairro poderiam receber algum tipo de incentivo do poder público para organizar a coleta após o mapeamento das áreas de bota-foras, mas o incentivo deve ser um início, não esquecendo a educação ambiental, levando à coleta voluntária.

Fornos de cimenteiras são bom destino final

Assegurar um mercado de reciclagem é um passo fundamental para tentar resolver o problema dos pneus descartados no meio ambiente. Um bom destino final são os fornos (clinquers) das fábricas de cimento, que já estão equipadas para amenizar a emissão de poluentes na atmosfera - na Europa, essas empresas consomem 40% dos pneus inservíveis como combustível, em lugar do carvão.

A cimenteira inglesa Blue Circle Cauldon, ao substituir apenas 15% do carvão de seu clínquer por pneu-resíduo, registrou uma diminuição de 4% na emissão de dióxido de enxofre, de 32% no óxido de nitrogênio e de 75% de dioxinas. A energia obtida sai mais em conta, mesmo que a empresa precise pagar pelos resíduos. O grande problema, no Brasil, é que não se pode contar com um fornecimento regular de pneus, na quantidade necessária.

Nem todos os pneus descartados, porém, devem ser queimados, pois o reuso e a reciclagem devem preceder à queima. A fabricação de tapetes e outros componentes automotivos, a partir da borracha recuperada, já é uma solução comum. Em Porto Feliz, a prefeitura utilizou pneus para a canalização de um rio, enquanto em Araras, um trecho da Rodovia Anhanguera recebeu asfalto com um percentual desses resíduos. No Nordeste, há criações de moluscos em pneus que simulam a estrutura dos corais. Técnicas industriais permitem recuperar inclusive o arame dos pneus. O armazenamento também é um aspecto a ser resolvido, já que o estoque não pode ficar a céu aberto por questões de saúde pública.