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NANOTECNOLOGIA À BRASILEIRA

Uma das mais promissoras áreas de inovação tecnológica brasileiras é invisível - mas não por muito tempo. A manipulação de átomos em universidades e empresas começa aos poucos a dar resultados práticos. São os produtos e processos baseados em nanotecnologia, a área da ciência que lida com dimensões que correspondem a um milésimo da espessura desta página. De plásticos biodegradáveis a sofisticados sistemas de lubrificação de máquinas, a nanotecnologia made in Brazil não fica muito atrás do que existe nos países desenvolvidos. "Como em todo novo campo do conhecimento, todos partem do mesmo ponto", diz Fernando Reinach, diretor do fundo de capital de risco Votorantim Novos Negócios. "Em tecnologia, estamos como o resto do mundo".

Os especialistas calculam que, em dez anos, os negócios envolvendo nanotecnologia podem chegar à incrível marca de 1 trilhão de dólares. Uma das experiências mais bem-sucedidas aconteceu num laboratório no segundo andar do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP). Há mais de dez anos, Ana Clara Schemberg e seus alunos investigam alterações nas moléculas de DNA de microorganismos. Uma das pesquisas deu origem a uma bactéria capaz de transformar a sacarose em polímeros. Tradução: Ana Clara desenvolveu uma maneira de fazer plástico a base de açúcar. E o plástico também é biodegradável.

A pesquisa gerou duas patentes, licenciadas para a PHB Industrial, empresa ligada à Copersucar. A produção em grande escala ainda não começou, mas Ana Clara já foi procurada por uma empresa de cartões de créditos interessada na tecnologia. "Há inúmeras aplicações possíveis", diz a pesquisadora. "Fraldas descartáveis, sacos plásticos e até mesmo fios para sutura, pois o produto também é adequado para o uso médico". Pelo acordo firmado com a PHB, 3% do faturamento com o novo material vai para a USP e para a equipe de cientistas, os detentores das patentes.

m dos maiores desafios dos pesquisadores acadêmicos é encontrar aplicações que interessem à indústria. "Um de nossos objetivos é fazer com que as empresas nos apresentem seus problemas", diz Luiz Nunes de Oliveira, pró-reitor de pesquisa da USP. Foi exatamente isso que deu origem a um promissor projeto desenvolvido pelo instituto de física da USP em São Carlos, no interior paulista. A empresa americana Tecumesh, uma das maiores fabricantes de compressores do mundo, procurava uma nova maneira de melhorar a lubrificação de seus equipamentos, usados em geladeiras e congeladores. Buscou a solução na universidade. "Criamos uma nanopelícula para revestir as peças que se movimentam", diz Antonio Carlos Hernandes, um dos autores do projeto. Isso melhora a performance dos equipamentos e reduz a necessidade de manutenção.

Exemplos semelhantes de pesquisa existem em todo o país. O que falta é o passo seguinte: criar as empresas. Nos Estados Unidos, fundos de capital de risco investem há anos em nanotecnologia. Por aqui, os negócios são raros. Reinach, da Votorantim, tem 200 milhões de dólares para aplicar em negócios nascentes. Nenhuma das 12 empresas em que tem participação é de nanotecnologia. A Sun Quartz, de Campinas desenvolveu um método nanotecnológico para produzir um tipo de fibra óptica de alto desempenho, usada em equipamentos de telecomunicações. A empresa tem quatro sócios e está ligada à incubadora da Universidade de Campinas. "Queremos ter contratos fechados para bater na porta dos investidores", diz Robinson Braga, diretor de marketing da Sum Quartz. Ele estima que, em dois anos, o faturamento possa chegar a 2 milhões de dólares.



Fonte: Revista Exame
(20 de julho de 2005)