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COMUNIDADE DO SERTÃO TERÁ LUZ GERADA COM MAMONA

Serrinha de Santa Maria, no sertão cearense, onde vivem 40 famílias de agricultores, será o primeiro lugar no Brasil a receber energia gerada a partir de biodiesel à base de mamona. A usina de produção do combustível está sendo instalada na Fazenda Normal, no distrito de Uruquê, a 201 km de Fortaleza e a 20 de Serrinha.

O projeto piloto está sendo tocado por um consórcio de cinco empresas, liderado pela Ceará Geradora de Energia (CGE) e com investimentos de R$ 1,5 milhão. Calcula-se que ainda em julho a nova fonte de energia comece a mudar a vida da comunidade.

Liquidificador e desenho

Ali, os moradores usam ferro a brasa, fogão a lenha, TV a bateria de carro e lamparina. A agricultora aposentada, Maria da Silva Nascimento, de 66 anos, pensa em comprar uma geladeira - a única do lugar fica na mercearia e funciona a gás.

A agente de saúde Edileuza Farias Duarte, de 33 anos, sonha em fazer vitaminas no liquidificador para o filho, Cássio, de 7 anos. Este, por sua vez, torce por uma TV em que possa ver o colorido dos desenhos animados.

Em galões

Na Fazenda Normal, administrada pela Ematerce - Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará, está o maquinário para a extração de óleo e de produção do biodiesel, além do plantio da mamona em 70 hectares. A Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária responde pela plantação e pela colheita.

A previsão é produzir 1.500 quilos/ha, o que deverá render 400 litros de óleo de mamona por dia. O biodiesel será levado em galões para abastecer um gerador de 81 KVA, que ficará na comunidade e será suficiente para mover um motor de irrigação e os eletrodomésticos.

O cultivo da mamona não fazia parte da cultura local, onde a tradição era a pecuária leiteira e o plantio do algodão - dizimado pela praga do bicudo. A cultura da mamona foi introduzida com o projeto. Optou-se pela variedade nordestina mais resistente ao clima seco característico do Sertão Central cearense.

Processo inédito

Handerzon Palma, gerente de projetos do consórcio, diz que a tecnologia do biodiesel já existe e a extração do óleo da mamona, também. Mas na geração de energia o processo é inédito.

Após uma avaliação do impacto econômico e social na comunidade de Serrinha, Palma diz que haverá a possibilidade de reproduzir a experiência em outros locais isolados, principalmente na Amazônia. Apesar do custo ainda ser alto - três vezes mais do que a energia comum -, Palma acredita na viabilidade do projeto. (Estadão Online 02/07/2004).


Fonte: Edição do jornal nº 1249 de 03/07/2004
www.ambientebrasil.com.br

 

SAIBA MAIS SOBRE O BIODIESEL:

Biodiesel (ésteres mono alquila) é um combustível diesel de queima limpa derivado de fontes naturais e renováveis como os vegetais. É obtido principalmente de girassol, amendoim, mamona, sementes de algodão e de colza. É uma alternativa renovável, que resolve dois problemas ambientais ao mesmo tempo: aproveita um resíduo, aliviando os aterros sanitários, e reduz a poluição atmosférica. É uma alternativa para os combustíveis tradicionais, como o gasóleo, que não são renováveis.

O biodiesel reduz 78% das emissões poluentes como o dióxido de carbono que é o gás responsável pelo efeito de estufa que está alterando o clima à escala mundial, e 98% de enxofre na atmosfera.

Trata-se de uma fonte renovável que, além de trazer benefícios ambientais, também possibilita a geração de empregos, tanto na fase de coleta como de processamento. Promove o desenvolvimento da agricultura nas zonas rurais mais desfavorecidas, criando emprego e evitando a desertificação, isto porque reduz a dependência energética do nosso país e a saída de divisas pela poupança feita na importação do petróleo bruto.

Os óleos vegetais podem reagir quimicamente com um álcool, para produzir ésteres. Esses ésteres quando usados como combustíveis levam o nome de biodiesel. Atualmente, o biodiesel é produzido por um processo chamado transesterificação. O óleo vegetal é filtrado, e então processado com materiais alcalinos para remover gorduras ácidas. É então misturado com álcool e um catalisador. As reações formam então ésteres e glicerol, que é separado.
O biodiesel pode utilizar-se em motores diesel, em mistura com o gasóleo (geralmente, na proporção de 5 a 30%) ou puro. Também pode ser utilizado como geração de energia elétrica. Exige, por vezes, pequenas transformações do motor de acordo com a percentagem de mistura e o fabricante/modelo do motor.

Apesar de ser um combustível renovável, a sua capacidade de produção é limitada pois depende das áreas agrícolas disponíveis (que terão, também, de ser usadas para fins alimentares) e portanto só poderá substituir, parcialmente, o gasóleo. O preço do biodiesel é ainda elevado, mas as novas tecnologias permitirão reduzir os custos da sua produção.


O biodiesel ainda esbarra em vários obstáculos, como a falta de regulamentação e os preços atuais do diesel derivado do petróleo. Estima-se que no começo do próximo século, teremos condições de gerar biodiesel correspondente a 8% de todo o diesel consumido.


Os motores a óleo vegetal possibilitam uma redução de 11% a 53% na emissão de monóxido de carbono, e os gases da combustão do óleo vegetal não emitem dióxido de enxofre, um dos causadores da chamada chuva ácida. O Brasil também tem a preocupação em reduzir poluentes. Desde 1997 fazemos óleo diesel com menos partículas de enxofre.


Atualmente já existem veículos que utilizam o biodiesel - quatro viaturas ligeiras e duas pesadas da Câmara Municipal de Lisboa, Portugal (mistura de 30%) e 18 autocarros da Carris (17 com mistura de 5% e 1 com 30%), ao longo de 6 meses e durante a Expo'98.


Vantagens do biodiesel:

• o biodiesel é mais seguro do que o diesel de petróleo;
• o ponto de combustão do biodiesel na sua forma pura é de mais de 300 F contra 125 F do diesel comum;
• equipamentos a biodiesel são, portanto, mais seguros;
• a exaustão do biodiesel é menos ofensiva;
• o uso do biodiesel resulta numa notável redução dos odores, o que é um benefício real em espaços confinados;
• tem odor semelhante ao cheiro de batatas fritas;
• não foram noticiados casos de irritação nos olhos;
• como o biodiesel é oxigenado, ele apresenta uma combustão mais completa;
• biodiesel não requer armazenamento especial;
• o biodiesel na sua forma natural pode ser armazenado em qualquer lugar onde o petróleo é armazenado, e pelo fato de ter maior ponto de fusão é ainda mais seguro o transporte deste;
• biodiesel funciona em motores convencionais;
• o biodiesel requer mínimas modificações pra operar em motores já existentes;
• é renovável, contribuindo para a redução do dióxido de carbono;
• o biodiesel pode ser usado sozinho ou misturado em qualquer quantidade com diesel de petróleo;
• aumenta a vida útil dos motores por ser mais lubrificante;
• o biodiesel é biodegradável e não tóxico.

Mamona e Biodiesel

A mamona (Ricinus communis - Euphorbiaceae) é uma planta existente nas regiões secas do Brasil. Está sendo utilizada como combustível renovável, ecologicamente correto, ajudando o sertanejo a ter uma fonte de renda e ter sobrevivência em épocas de estiagem.


O biodiesel extraído da mamona pode ser usado em qualquer motor, como os de tratores ou os de caminhões, sem nenhuma adaptação.


O biodiesel pode ser produzido a partir de todo óleo vegetal e até animal, como óleo de peixe. No caso do combustível feito a partir de óleo de mamona, que tem uma viscosidade maior, ele precisa ser misturado na proporção de 20% de biodiesel para 80% de diesel comum para ser usado. Na sua combustão, não há emissão das substâncias mais poluentes (que contêm enxofre), encontradas nos combustíveis fósseis. O biodiesel pode inclusive ser usado em geradores de energia, neste momento de escassez, ajudando a reduzir a importação de petróleo.

Depois de extraído o óleo, a sobra (chamada de torta ou farelo) ainda pode ser usada como ração animal. No caso da mamona, é preciso desintoxicar o farelo antes de transformá-lo em ração. É possível também transformar a madeira do caule em adubo. A mamona produz de 15 a 20 toneladas de madeira por hectare.

A intenção é produzir de 2000 a 3000 litros por dia de combustível dentro de 90 dias, mas ainda são necessários R$ 500 mil para concluir a instalação. O coordenador do projeto é o professor aposentado da universidade Federal do Ceará - Expedito Parente.