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Entrevista

O desafio da administração sustentável

Sustentabilidade deve ser tema corrente em salas de aula para que os futuros gestores sejam capazes de aproveitar as oportunidades oferecidas no mercado, aponta o diretor do Anima Educação.

São Paulo, 1 de Abril de 2009 - Eduardo Shimahara, engenheiro e diretor de Sustentabilidade e Inovação do Anima Educação, grupo que gerencia os campos da Unimonte de Santos e Belo Horizonte, tem o desafio de ser sustentável na prática. Shimahara dribla um orçamento quase zero poupando recursos de insumos como água, energia, papel e copos plásticos. Seu desafio é ainda maior: trazer o tema para as salas de aula numa perspectiva transdisciplinar, em especial no curso de Administração. Só assim os futuros gestores estarão aptos para um mercado cada vez mais exigente em práticas sustentáveis.

Gazeta Mercantil -Por que é importante desenvolver a educação voltada para a sustentabilidade?
Tenho estudado o tema e percebo que sustentabilidade não é uma onda de marketing ou algo passageiro mas uma transformação pela qual o mundo está passando. Acho que não estudar esse assunto hoje vai te colocar numa posição defasada em relação ao mercado. Quem não estudar sustentabilidade, vai ficar fora do mercado.

Gazeta Mercanti - As empresas querem profissionais que dominem estas informações?
Recentemente o presidente de um conglomerado alimentar me disse que contrata trainees das melhores faculdades de administração de São Paulo. No processo seletivo, faz cinco ou seis questões sobre sustentabilidade e nenhum dos candidatos consegue responder a todas. O resultado é que a empresa está sendo obrigada a criar cursos internos para preparar este recém-formado. Pelo que vejo nas empresas, quem não estudar vai acabar se situando fora do mercado em breve.

Gazeta Mercanti - De 2008 para cá, que ações concretas a Unimonte desenvolveu voltadas para a sustentabilidade?
A Anima assinou o Pacto Global (iniciativa da Organização das Nações Unidas [ONU] que conta com 10 princípios e cujo foco é reforçar a importância da responsabilidade social corporativa), em setembro de 2008. A adesão ao Pacto pode ser feita por qualquer empresário, mas o importante mesmo é mostrar que efetiva práticas sustentáveis, descritas em relatórios, nos quais informa a ONU sobre as ações desenvolvidas.

Gazeta Mercanti -Que projetos estão sendo desenvolvidos?
Estamos debruçados agora sobre os princípios ligados ao meio ambiente, de número sete e oito no Pacto Global. O tema nos aponta desafios como o fato de não termos reciclagem em grande parte dos nossos campi e a necessidade de monitoramento do uso de energia, água e papel per capita.

Gazeta Mercanti -Qual a previsão de implantação do projeto da reciclagem?
Temos quatro campi em Santos e dez em Belo Horizonte. Começamos no campus Victorio Lanza, em Santos e no Raja, em, Belo Horizonte. com 7 mil pessoas, entre alunos e funcionários em cada cidade. Todos devem estar cobertos entre 18 a 24 meses.

Gazeta Mercanti -Qual sua verba para o projeto?
O presidente da Anima sempre nos coloca um desafio dizendo que, como núcleo de sustentabilidade, precisamos ser exemplo, partindo do investimento zero e usando recursos gerados em ações como a economia efetiva no consumo de água, energia e papel. Estes valores serão reinvestidos, por exemplo, em lixeiras e coletores, que podem chegar a custar RS 900 a unidade. E cada campus precisa de, no mínimo, 100 lixeiras. E este gasto não virá do bolso do aluno.

Gazeta Mercanti -Qual a meta de redução?
Não fechamos um total, mas algo em torno de 25%.

Gazeta Mercanti -Como é o plano de trabalho na prática?
A conta de insumos beira hoje os R$ 90 mil reais nos três campi de Santos. Com o programa de controle dos gastos conseguindo poupar 25% deste valor ao mês, terei R$ 22,5 mil para compor os outros campi rapidamente. O mesmo se aplica aos copos plásticos, consumidos em profusão e que, com uma economia mensal seria possível a compra gradual de canecas para uso mais perene. Pego R$ 8 mil em copos e R$ 2 mil em canecas e, teoricamente, o setor que está com as canecas vai parar de consumir copos plásticos. Aos poucos, consigo zerar a conta e substituir o plástico pelo não-descartável e sem falar no impacto ambiental. É um exemplo que sustentabilidade não custa caro. São recursos que já estão dentro de casa. É uma questão de inteligência. E de educação.

Gazeta Mercanti - Que outros projetos o Pacto inspirou?
Os princípios um e dois, que tratam dos direitos humanos, nos inspiraram a treinar funcionários e professores recém-contratados e fornecedores. A sustentabilidade não se dá sozinha, não adianta ser uma empresa que não polui e seu principal fornecedor ter 50% de mão de obra escrava. A capacitação para os que já trabalham nos campi ocorre mês a mês. Ainda temos a abordagem do princípio dez, da não-conivência com qualquer tipo de corrupção. O professor Felipe Chiarello prepara ainda para 2009, em Santos, um grande fórum para discutir a corrupção.

Gazeta Mercanti -O que é e como surgiu o Guia de Consumo Responsável de Pescados?
É um guia que foi lançado em novembro para ajudar qualquer pessoa que vai à feira a fazer escolhas mais conscientes na hora de comprar peixes e frutos do mar, indicando as espécies que estão ameaçadas ou não. Foi idéia da professora Cintia Miyaju e os interessados podem fazer grátis o download do material no site http://www.unimonte.com.br.

Gazeta Mercanti - Quais os maiores desafios que a sustentabilidade traz para a Unimonte?
O primeiro é as pessoas entenderam que sustentabilidade não é algo a mais. É uma nova forma de ver as mesmas coisas. Outro é perceber que sustentabilidade não é só meio ambiente. Na ótica corporativa, trata-se de um tripé. A empresa sustentável é aquela que é sustentável economicamente, ambientalmente e socialmente. O terceiro e maior desafio é tentar de fato colocar isto dentro de todas as salas de aula.

Gazeta Mercanti - A intenção é colocar a sustentabilidade em toda a grade disciplinar?
Tivemos uma experiência muito bem sucedida com a professora Juliana Salvador, coordenadora do curso de Administração de Belo Horizonte. Ela é estudiosa da questão estratégica da administração e sentindo que havia receptividade da instituição para a questão da sustentabilidade, modificou o currículo para que todas as disciplinas tivessem sustentabilidade como pano de fundo. Levou três meses para que os 60 professores fossem conscientizados da importância do tema. O caso teve tanto sucesso que ela fará uma exposição no Global Forum, em Cleveland (EUA), em junho.

Gazeta Mercanti - Qual a diferença desta experiência com inúmeras faculdades que têm disciplinas de sustentabilidade?
A diferença é que a professora Salvador tratou o tema de forma transdiciplinar. Quando um aluno de Administração de Belo Horizonte vai estudar a questão de balanços contábeis, já estuda balanços de sustentabilidade, o balanço GRI, no qual aprende a identificar e interpretar quais são as informações relevantes socialmente, ambientalmente e economicamente. Quando estuda a Teoria da Administração, começa a ver novos modelos de empresas que estão reajustando seu foco e melhorando seu produto. Elas se tornam mais rentáveis, menos impactantes ambientalmente e mais viáveis socialmente. São detalhes nas disciplinas que fazem com que o tema permeie 100% da grade de administração. Infelizmente tenho visto faculdades e universidades que notaram que a questão da sustentabilidade é importante mas querem correr contra o tempo, querem fazer o mais rápido possível. Penduram uma disciplina no último semestre depois de passar todo o curso defendendo a maximização econômica e criam uma incoerência curricular.

Gazeta Mercanti - E Santos, quando terá esta mudança curricular?
A professora Juliana Salvador deve implantar a mudança de modo efetivo para os 1100 alunos e 35 professores de Santos já em 2010. A idéia é estender a mudança a todos os cursos, a longo prazo, fazendo o aluno perceber que pode agregar valor ao que faz seguindo os princípios da sustentabilidade.

Gazeta Mercanti - Como a sustentabilidade tem aparecido nas pesquisas acadêmicas?
Nos Trabalhos interdisciplinares dirigidos (Tidir), exigidos a cada semestre dos alunos, há temas como os 15 anos da Lei de Modernização dos Portos na Baixada Santista, impactos das mudanças climáticas globais no risco de inundações em zonas costeiras, banco de dados georeferenciados sobre composição florística do fitoplâncton e ocorrência de florações algais nocivas no sistema estuarino de Santos.

Gazeta Mercanti - O que é o Prime e o que a adesão e que ações ele inspira?
O Prime é filho do Pacto Global e nasce com o foco na educação. É uma inspiração, não é uma diretriz, os princípios têm escopo bastante amplo para servirem mesmo para inspirar uma educação gerencial responsável. Acabamos de dar início ao trabalho com o Prime e logo teremos novidades. O Prime, acima de tudo, marcou a primeira reunião acadêmica sediada na ONU, no início de dezembro de 2008. Além da Unimonte, entre as menos de dez instituições brasileiras presentes em meio a representações vinda de 40 países, estavam centros formadores como a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná e a Fundação Dom Cabral.

Gazeta Mercanti - Em quanto tempo a Unimonte colocará no mercado trainees preparados para a entrevista com aquele presidente do conglomerado alimentar?
Em cinco anos, que é o prazo do curso de Administração, formaremos a primeira turma de administradores sustentáveis.

 

 

 

Fonte: Entrevista retirada do Jornal Gazeta Mercantil - Caderno A - Pág. 8
Data da Revista: 01.04.2009