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Entrevista
Amazônia preservada deve ser paradigma geral
Interesses controversos ainda imperam na região Amazônica.
De um lado, o desmatamento predatório e suas ramificações
que se instalaram na floresta há mais de 300 anos e perduraram devido
a uma visão de desenvolvimento, que deixou restar apenas 7% da Mata
Atlântica. De outro estão pessoas, entidades e empresas que
se engajam na con-servação e sustentabilidade dos povos regionais.
A ex-ministra do Meio Ambiente e senadora do Partido dos Trabalhadores (PT)
pelo estados do Acre, Marina Silva, conhece bem as forças contrárias
que lá atuam. E afirma que fez pela Amazônia o tanto quanto
pôde enquanto estava à frente da pasta até não
ter mais condições políticas de se sustentar.
"Esses processos são muito fortes, mexeram com interesses enormes
em várias regiões do País. Quando percebi que eu e
minha equipe já não reuníamos condições
políticas para continuar implementando, consolidando e ampliando
essas medidas, pedi para sair". A seguir, trechos da entrevista:
Gazeta Mercantil - Nesses últimos 30 anos o que mudou em
relação ao que se pensa como desenvolvimento para a região?
Em primeiro lugar mudou a consciência dos brasileiros. Há
20 existia a Aliança dos Povos da Floresta, que ninguém conhecia
praticamente; Chico Mendes foi assassinado e boa parte da opinião
pública nem sabia quem ele era e o que estava fazendo; se induzia
compra de terra para tirar floresta, plantar capim e criar gado e isso era
visto como valorização e desenvolvimento. Hoje há uma
opinião pública mobilizada que quer ver o País crescer,
quer ver fazer o uso sustentável da floresta e da sua biodiversidade,
mas também que seja preservada. Mudou a consciência e algumas
atitude de governos locais, de empresas e de alguns segmentos que ainda
são setores de vanguarda. Mas ainda precisa se transformar em paradigma
de forma horizontal, e, não, só de alguns setores.
Gazeta Mercantil - Qual a sua avaliação sobre o
aumento de ações de empresas privadas com as comunidades locais?
Vou me referir às empresas que estão fazendo parceria
com as comunidades de forma correta e tentando fazer as coisas à
luz da legislação. É um processo inovador porque é
uma forma de valorização em três níveis: da floresta,
do uso sustentável da biodiversidade e dos conhecimentos associados
ao uso desse produto natural. É claro que não basta desenvolver
apenas alguns projetos na Amazônia. É fundamental que se tenha
uma postura de relação sustentável em todos os seus
negócios, porque você não pode ter uma face ambientalmente
correta e outra não tão correta.
Gazeta Mercantil - Essas empresas atendem a comunidade nas coisas
em que o governo não ?
Acho que são investimentos que levam à inclusão
produtiva, e isso é uma forma de independência das comunidades,
mas há serviços que têm de ser feitos pelo Estado, como
infra-estrutura, educação, saúde. Não deve haver
uma presença para substituir o que o Estado tem obrigação
de fazer, mas, sim, para ajudar na promoção da inclusão
produtiva, porque isso é positivo do ponto de vista econômico-social
para ambos. É claro que as empresas não vão lá
fazer caridade, elas ganham com isso, agregam à sua imagem, têm
um produto que estão precisando. É bem positivo quando se
faz isso dentro de uma relação de autonomia e respeito às
comunidades e aos processos legais. Mostra que não está fazendo
apenas por marketing.
Gazeta Mercantil - A senhora acredita que as ações
dessas companhias também têm como objetivo a atração
de investidores ?
Há duas formas de se mobilizar: pela razão e pelo coração
e as duas são igualmente legítimas, principalmente se viabilizá-las
ao mesmo tempo. É claro que tem que sair das experiências-piloto
para ações de longo prazo e de longo alcance. E aí
é fundamental que existam parcerias entre empresas, governo e comunidades.
Gazeta Mercantil - Essa consciência de preservação
foi forçada pela pressão externa? Há influência
nas ações brasileiras?
Não há dúvidas de que há retroalimentação.
Mas se não tívessemos uma opinião pública nacional
mobilizada, com certeza, não teria nenhum tipo de manifestação
externa que pudesse reverberar. Não podemos assumir uma atitude passiva
de que o Brasil e os amazônidas são uma folha em branco e que
externamente a opinião possa mudar o destino dessas pessoas.
Gazeta Mercantil - Mas, apesar de todo esforço, ainda existe
um modelo predatório que acaba obrigando o êxodo das famílias...
Há uma disputa acontecendo pela última fronteira agrícola
do Brasil, e, porque não dizer, a maior do mundo, que é a
Amazônia. Esses processos são complexos e há inúmeros
casos em que populações locais são pressionadas pelos
grupos que vão chegando na disputa pela terra, pela exploração
ilegal de madeira, pelo plantio de grãos e pelas pastagens. Principalmente
pelas pastagens, que ocupa cerca de 75% das áreas desmatadas.
Gazeta Mercantil - Como fazer para reduzir esse problema?
Em primeiro lugar não se pode reduzir o controle de desmatamento
apenas às ações de comando e controle. É por
isso que trabalhamos com o Plano de Combate ao Desmatamento, que envolve
13 ministérios e tem três eixos estruturantes, que são
o combate às práticas ilegais, apoio às práticas
produtivas sustentáveis e o ordenamento territorial e fundiário.
A questão tem de ser atacada nessas três frentes. Qualquer
ação que não entenda que esse é um trabalho
integrado, estará enfraquecida. E, nos últimos cinco anos,
temos conseguido resultados: uma redução de 59% do desmatamento,
que levou 700 pessoas à cadeia, desconstituímos 1.500 empresas
de grilagem, aplicamos R$ 4 bilhões em multas, aprendemos 1 milhão
de metros cúbitos de madeira. A agenda de desenvolvimento sustentável,
talvez a mais difícil e mais complexa, tem deixado a desejar, pois
é preciso induzir novas dinâmicas econômicas na região,
como pecuária intensiva, manejo florestal sustentável, turismo,
uso dos componentes da biodiversidade. Começa a dar escala a essas
práticas inovadoras e elas vão substituindo os modelos predatórios.
Gazeta Mercantil - Porque a senhora deixou o ministério?
Esses processos são muito fortes, mexeram com interesses enormes
em várias regiões do País. E, quando eu percebi que
eu e minha equipe já não reuníamos condições
políticas para continuar implementando, consolidando e ampliando
essas medidas, pedi para sair como uma forma de ajudar o País e o
governo. Porque naquele momento havia uma pressão muito grande para
que o presidente revogasse algumas medidas, que ele corajosamente decretou
e assinou. E acho que minha saída ajudou porque a opinião
pública se manifestou de uma forma tal, dizendo que as medidas que
ele havia tomado estavam corretas e que não deveriam ser revogadas.
E acho que o ministro Minc (Carlos) assumiu em uma situação
altamente favorável. Primeiro porque as coisas mais difíceis,
no meu entendimento, já haviam sido feitas. Ele assumiu com uma boa
marmita de medidas para continuar e ao mesmo tempo com respaldo da opinião
pública.
Fonte: Entrevista retirada do Jornal Gazeta Mercantil - Caderno A - Pág.
4 (Simone Cavalcanti)
Data do Jornal: 22.07.2008
