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O paradoxo da água na Região Metropolitana de São Paulo
Paulo Antunes
No momento em que começam os debates sobre o Plano Diretor de Abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo para 2025, em fase de elaboração pela Sabesp e a veiculação de notícias que dão conta que a falta de fiscalização das ligações clandestinas de esgotos colocam em risco o cumprimento das metas ambientais da segunda fase do projeto de despoluição do Rio Tietê, a Home Page da Apetres entrevistou o engenheiro Ricardo Araújo, assessor da Diretoria Metropolitana da SABESB, responsável pela captação, tratamento e distribuição de água e coleta e tratamento de esgotos. Embora em termos absolutos, o Brasil seja um País rico em recursos hídricos, essa riqueza não é bem distribuída, explica o assessor da companhia de saneamento do Estado de São Paulo. As regiões com maior patrimônio hídrico são aquelas que concentram menor número de população. De outro lado, tome-se o caso da Região Metropolitana de São Paulo, onde vivem 18 milhões de pessoas, localizada junto às cabeceiras do rio Tietê, que é uma área caracterizada pela escassez de água. Ele diz que apesar de todos os riscos de racionamento, hoje ainda existe um equilíbrio entre a oferta e a demanda de água, isso porque metade da água fornecida é captada na Bacia do Piracicaba. E, em que pese os inevitáveis conflitos com aquela região, não há outro jeito. Aliás, as perspectivas futuras apontam para necessidade de investimentos para buscar mais água em outras regiões para atender a uma população estimada entre 22 e 24 milhões de habitantes em 2020. Nesta entrevista Ricardo Araújo fala também sobre medidas necessárias para a preservação do escasso patrimônio hídrico da região. A entrevista foi concedida ao Jornalista Paulo Antunes, editor de conteúdo do Site da Apetres.

Apetres – Fale sobre as perspectivas de abastecimento de água
na Região Metropolitana de São Paulo.
Ricardo Araújo – A Região Metropolitana de São
Paulo vive um paradoxo. Concentra o extraordinário contingente de
18 milhões de habitantes e está localizada em uma área
caracterizadamente pobre em recursos hídricos, situada junto às
cabeceiras do Rio Tietê e desprovida de grandes mananciais de água.
A situação hoje é de equilíbrio porque praticamente
metade da água fornecida é captada na Bacia do Piracicaba.
Mas a empresa não pode deixar de se preocupar e planejar futuros investimentos
para captação de água em outras regiões porque
o crescimento vegetativo da população é muito dinâmico
e a população vai crescer e nós precisamos buscar fontes
de abastecimento.
Apetres – A região é pobre em água, novos mananciais
são distantes, portanto os custos para essa captação
são elevados. Mas também é verdade que o sistema perde
muita água antes que esta chegue às torneiras da população,
não é mesmo?
Ricardo Araújo – De fato as nossas perdas são significativas.
Parecidas com o que acontece na Inglaterra, por exemplo. Da ordem de 15 a
16% da água tratada é perdida no caminho para os consumidores.
Se comparado com os índices do Japão e Holanda, cujas perdas
são da ordem de 5%, a coisa pesa. Além do mais, todos esses
países possuem uma capacidade de investimento e correção
dos problemas que estão bem longe da nossa realidade. Mas, antes de
comentar sobre iniciativas voltadas para o uso racional da água é preciso
dizer que independentemente de controle de perdas é inexorável
que se procure novos mananciais e se invista em novos sistemas produtores
porque a população continuará crescendo e é preciso
ofertar água para essa demanda. Estima-se que em 2020 a população
da Região Metropolitana será de 22,5 a 24 milhões de
habitantes.

Apetres – Você mencionou em investir no uso racional da água...
Ricardo Araújo – Sim. Nós temos feito um grande esforço
no desenvolvimento de programas que incentivem o uso racional da água.
Isso pode ser percebido no setor industrial, no comércio e também
nas residências. Nas indústrias os resultados são percebidos
com mudanças nos processos industriais que reduzem o consumo de água;
no comércio, por exemplo, o uso de equipamentos temporizadores nos
sanitários de Shoppings Centers é uma iniciativa responsável
por economias significativas.
Apetres - Mas, e o consumo residencial? A impressão que se tem, mesmo
com a campanha “Olha o Nível”, é de que ela não
pegou. Não é difícil de ver pessoas lavando calçadas
e carros com os jatos d’água, não é mesmo?
Ricardo Araújo – No caso do consumo residencial houve um trabalho
muito importante junto à indústria de sanitários que
resultou em vasos sanitários mais econômicos, por exemplo. E
no que diz respeito à campanha de economia no consumo de água é preciso
dizer que 43% dos consumidores residenciais estão recebendo os descontos
nas contas de água, ou seja, significa que a população
está economizando. Claro que a mudança de hábitos e
costumes é algo que demora, mas os resultados não são
ruins não.
Apetres – Voltando aos mananciais. Convivemos com a escassez de água
ao mesmo tempo em que há um processo acelerado de degradação
ambiental de mananciais como a Billings e a Guarapiranga. Mesmo com uma lei
para proteger os mananciais, parece que o Poder Público foi incapaz
de evitar o verdadeiro colapso desses ecossistemas.
Ricardo Araújo – A economia formal foi e é controlada.
Ocorre que o Poder Público de um modo geral, não foi capaz
de enfrentar a informalidade urbana. Essa informalidade no Guarapiranga é flagrante.
Mas, o não cumprimento da legislação é parte
da resposta dos problemas vividos nestas áreas. Veja que a expansão
da mancha urbana para dentro da Guarapiranga ocorreu de forma inexorável
porque na região estão dadas as condições para
que isso ocorresse. A cidade se desenvolveu naquele sentido. Ali está o
distrito industrial de Santo Amaro, o mercado imobiliário da região
da Berrini e adjacências foi responsável pela vitalidade econômica
do setor da construção civil, geração de empregos
etc. A população foi morar na região do Guarapiranga.
Lá estão pelo menos 750 mil habitantes, sendo a maior parte
concentrada muito próximo ao reservatório. O mesmo ocorreu
na Billings. Lá vivem outras 860 mil pessoas conforme o Censo de 2000.

Apetres – Sim, portanto, o Poder Público não
soube...
Ricardo Araújo – Lidar com a complexidade do urbanismo não é tarefa
para uma empresa de saneamento ou setor de governo. Exige a concorrência
de diversas áreas do Poder Público. Estado e Municípios
devem atuar cooperativamente. Veja o exemplo do ‘Projeto Guarapiranga’,
funcionou muito bem enquanto houve colaboração dos diversos órgãos
envolvidos no programa. Porém, nessas regiões a situação é complicada,
exige investimentos constantes. Se não existe atenção
constante, a coisa se perde e deteriora. É preciso colocar infra-estrutura,
pois a população já está lá, assim como
também é importante a fiscalização para impedir
que a situação piore.
Apetres – E a situação de outros
mananciais?
Ricardo Araújo – O processo de degradação no Baixo
Cotia é extremo A poluição urbana praticamente destruiu
este manancial. Na região do Alto Tietê o problema é de
outra ordem. Tem sido constatada a floração excessiva de algas
no manancial. Suspeita-se que estas florações tenham sua origem
na agricultura que é o forte da região, com a produção
de hortifrutigranjeiros, com a eventual descarga de nutrientes oriundos dessa
atividade econômica no rio.
Apetres – E a situação dos mananciais de águas
subterrâneas?
Ricardo Araújo – A Região Metropolitana de São
Paulo também é relativamente pobre em águas subterrâneas.
Além do mais, a Sabesp possui poucas captações subterrâneas.
O que tem havido nessa área é uma profusão de perfurações
clandestinas de poços. Estima-se que existam entre 7 a 10 mil poços
clandestinos, sem a outorga de uso concedida pelo DAEE. E com essas perfurações
indiscriminadas podem ocorrer diversos problemas. Desde a contaminação
da água, passando pela oferta de água sem a qualidade e requisitos
técnicos adequados ao abastecimento humano até ocorrer à diminuição
do potencial do manancial. Isso pode resultar em uma demanda reprimida que
será repassada para a Sabesp sem que esta tenha condições
de atender.
Apetres – O abastecimento de água está quase que universalizado
na Região Metropolitana de São Paulo. Qual é a realidade
do tratamento de esgotos?
Ricardo Araújo – De fato a oferta de água atinge a quase
100% da população. Algumas favelas, loteamentos clandestinos,
que por lei estamos impedidos de puxar a rede, são as exceções,
embora não signifique que estas pessoas estejam sem água. Ai
ocorre o furto de água da rede. Já a coleta, afastamento e
tratamento de esgotos é uma outra história. Esta é uma
conta complexa de ser feita...
Apetres – Existe aqueles municípios que adotaram serviços
autônomos e não estão atrelados à Sabesp. Na verdade,
o que parece é que os conflitos políticos partidários
nessa área é que não ajudam a melhorar os serviços.
Ricardo Araújo – Existe empresas de saneamento altamente eficientes.
Serviços municipais também. Mas é verdade também
que existem aqueles que são extremamente ineficientes. Veja os casos
dos serviços de esgotos de São Bernardo e Osasco, que acabaram
de ser transferidos para a Sabesp. Os sistemas estavam totalmente deteriorados
devido à ineficácia dos departamentos municipais de saneamento.
De outra ordem, veja que vivemos uma situação para lá de
estranha com a ETE/ABC – Estação de Tratamento de Esgotos
sub utilizada pela falta de esgotos para tratar. O nó nesse assunto é a
interceptação do esgoto. O esgoto é coletado e afastado
das residências e não chega às estações
de tratamento porque não existem redes de interceptores, ou porque
existe perda de esgoto por vazamento ou ligações clandestinas às
redes de águas pluviais, falhas de cadastros etc. É um trabalho
de formiga que precisa ser feito e não é fácil.
Apetres – Uma empresa de saneamento é rentável
economicamente?
Ricardo Araújo – O problema é que uma empresa como a
Sabesp não recebe recursos fiscais de nenhuma ordem. Ela tem que sobreviver
com a cobrança dos serviços de água e esgotos. Aliás,
ela paga impostos como outra empresa qualquer. E, é da receita da
cobrança de serviços que ela deve retirar os recursos para
investir em obras e ampliar os seus serviços para a população.
Quanto mais água vender, quanto mais esgoto tratar melhor. Recentemente,
a Sabesp conseguiu colocar as suas ações na Bolsa de Valores,
uma forma de captar recursos para cumprir a sua missão.
Apetres – Qual a avaliação que se pode fazer do Projeto
Tietê, na parte que compete à Sabesp?
Ricardo Araújo – O Tietê é um Projeto com diversos
aspectos e instituições envolvidos. A CETESB fez um grande
papel ao controlar a poluição hídrica de origem industrial.
O DAEE está cuidando do aprofundamento da Calha do Rio para combater
as enchentes. No caso dos esgotos os avanços são significativos,
embora muitas vezes as melhorias não sejam percebidas. A redução
da mancha anaeróbia das águas do rio no sentido do Interior
do Estado é uma realidade. Porém, a coleta, intercepção
e tratamento de esgotos ainda vão demandar décadas de investimentos
e avanços tecnológicos.
Apetres – Para encerrar, na sua visão, empresas como as representadas
pela APETRES, de tratamento e destino final de resíduos que papel
podem desempenhar no processo de melhoria da qualidade ambiental dos recursos
hídricos e mananciais?
Ricardo Araújo – De um modo geral o que é possível
mencionar é que a questão ambiental já representa um
importante segmento de negócios. Gera emprego e renda, promove a melhoria
da qualidade de vida das pessoas e contribui para a preservação
do ambiente, ou seja, contribui para a sustentabilidade. Na medida que a
base da nossa sobrevivência é preservada pelas ações
econômicas, pode-se dizer que essa atividade é bem vinda e positiva.
Não se trata mais de se fazer investimentos compensatórios
para mitigar impactos ambientais. Há que se fazer bem feito da primeira
vez.
