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A perda do ambiente natural faz a fauna se adaptar

Para a médica veterinária Ângela Branco um empreendimento como uma central de disposição e tratamento de resíduos gera tantos impactos para a fauna quanto aqueles promovidos por outros grandes empreendimentos como: mineração, abertura de estradas, construção de hidrelétricas entre outros. Com atuação destacada no Poder Público, criou e foi diretora da Divisão de Fauna Silvestre, da Secretaria do Verde e Meio Ambiente da Prefeitura de São Paulo, criou e desenvolveu o projeto CEMAS - Centro de Estudo e Manejo de Animais Silvestres para o Governo do Estado de São Paulo, com a criação e implantação de um Hospital para a Fauna. Mas, injunções políticas tiraram dela a possibilidade de dirigir o centro de referência, que hoje tem suas funções bastante comprometidas. Angela pondera que os impactos à fauna com a implantação de empreendimentos para a disposição do lixo são inevitáveis. O que é preciso fazer é mensurar esses impactos e tomar medidas para que sejam minimizados, afinal as centrais de tratamento de resíduos tanto quanto a fauna são importantes para a sociedade e para o ambiente. A entrevista:

Apetres – O que uma profissional com atuação voltada para a proteção e preservação da fauna silvestre pensa de empreendimentos como os desenvolvidos pelas empresas associadas da APETRES?
Angela Branco - No meu modo de ver as coisas, esses empreendimentos da mesma forma que outras atividades humanas causam grandes impactos à fauna. Mas, também não é possível deixar de reconhecer que um aterro é necessário. A cidade gera resíduos, alguém tem que coletar e dispor o mais adequadamente esses resíduos. Enfim, a missão de um aterro é nobre pois vai dispor e tratar os resíduos.

Apetres - O que pode ou deve ser feito para que os impactos sobre a fauna, que são inevitáveis, sejam minimizados?
Angela Branco - De fato são necessários muitos cuidados para que os impactos sejam minimizados. Quando se trata de um empreendimento que vai ocupar uma área que já teve outros usos, como mineração de pedra, areia, o grande impacto ambiental já ocorreu, quando essas áreas foram desbravadas. Mas, é preciso observar que mesmo assim, nas áreas vizinhas, principalmente quando existem áreas florestadas, que lá existe uma fauna que se acostumou àquele impacto e se adaptou ao lugar que já não é mais o seu habitat natural.

Apetres - É mais ou menos o que ocorre na cidade, em parques, bosques e praças?
Angela Branco - É isso. Veja que em muitos parques urbanos de São Paulo existe uma variedade de fauna muito grande, principalmente de espécies de aves. Isso é o que chamamos de capacidade de adaptação dessas espécies ao ambiente urbano hostil, com ruídos, poluição do ar etc. A avefauna possui capacidade para se adaptar em outras áreas, pois tem grande mobilidade e consegue escapar de queimadas, desmatamentos e movimentações de terra. Esse não é o caso de espécies como os tatus, preguiças e ouriços, que são lentos e se não forem observados antes destes grandes impactos fatalmente serão afetados vitalmente.

Apetres - Bem você estava dizendo que quando um empreendimento vai ser implantado são necessárias medidas para que os impactos para a fauna do lugar sejam minimizados e...
Angela Branco - Exato. Antes da implantação de um empreendimento é preciso fazer um estudo da fauna do lugar. Peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos. Não estou nem falando dos invertebrados. Os anfíbios, por exemplo, são muito sensíveis e ótimos bioindicadores, absorvem elementos tóxicos, vivem em um ambiente hídrico e tanto quanto os peixes servem para avaliar e monitorar a qualidade dos recursos hídricos, por exemplo. Enfim, é preciso fazer um estudo qualitativo da fauna.

Apetres - E quando o empreendimento está sendo implantado...
Angela Branco - Bem aí os cuidados devem ser redobrados, principalmente com aqueles animais que são mais lentos para se deslocar. Quando for fazer uma movimentação de solo, por exemplo, é preciso observar a presença de tatus para que sejam resgatados antes da realização do trabalho. Ouriços e bichos preguiça também se inserem nas espécies que merecem um cuidado especial nesse momento da implantação do empreendimento. Destaque também deve ser dado para o caso de encontrar um animal que se acidentou para que ele seja encaminhado para um centro de atendimento à fauna, para que este possa realizar o tratamento e eventualmente a sua realocação em área próxima ao antigo ambiente natural.

Apetres - Mas o impacto é inevitável e as perdas sempre são significativas?
Angela Branco - De fato. Assume-se que muitos animais vão morrer. Mas se o trabalho é sério, as empresas responsáveis pela implantação dessas centrais de tratamento de lixo devem possuir pessoas treinadas para resgatar e evitar ao máximo que ocorram acidentes com os animais. Todos os exemplares resgatados devem ser registrados e encaminhados para centros de triagem e tratamento da fauna.

Apetres - O registro é importante por que?
Angela Branco - É importante para o aprimoramento do sistema, para o estudo da espécie e de seu habitat. E ainda, com o registro esta se procedendo ao monitoramento do que está acontecendo no ambiente e com as espécies de um modo geral. Aliás, o monitoramento é importante também porque hoje não possuímos elementos suficientes para saber qual é o grau de impacto causado pelos diversos tipos de empreendimentos. Com a catalogação de informações isso vai ser importante porque vai permitir aos técnicos e autoridades saibam a gradação dos impactos que esses empreendimentos causam à fauna, o que auxilia nas medidas mitigadoras e de proteção.

Apetres - E durante a operação do empreendimento?
Angela Branco - Esse deve ser um trabalho constante. Veja que um empreendimento como uma central de tratamento de resíduos é hostil em diversos aspectos para a fauna. São ruídos intensos, emissão de gases, as vias de acesso podem representar riscos de atropelamento para os animais. Portanto, os cuidados, o monitoramento devem ser constantes. Além do Poder Público, o empreendedor também tem responsabilidades frente aos impactos ambientais e quanto mais ele esteja consciente disso e quanto mais ele faça para que o seu empreendimento não cause danos à fauna, melhor não só para a imagem do empreendimento, mas também para a sociedade, para o meio ambiente, enfim, para todos.

Apetres - Você mencionou as responsabilidades. O Poder Público tem sido responsável na questão da fauna?
Angela Branco - Acho que não. O Poder Público tem feito muitas exigências na hora de aprovar os empreendimentos, promovendo inclusive muitas polêmicas. Porém, depois quando o empreendimento está funcionando os agentes públicos não têm dado a efetiva importância para a fauna e para o cumprimento das exigências que foram estipuladas no processo de licenciamento. Isso é muito ruim. Aliás, acho que no cômputo de um crime ambiental é preciso fazer uma melhor valoração do que representa um determinado tipo de crime, sua extensão e profundidade, tanto para a fauna, como para a flora, para a água, solo e poluição do ar. Ou seja, uma pessoa ou empresa, quando for multada por um crime contra o meio ambiente, deve ficar sabendo que causou impactos a todos os elementos do ambiente e que cada um deles tem um peso na equação da multa. Digo isso para que também os valores apurados com as multas também sejam repassados para programas visando a reparação de danos para cada um dos elementos da natureza afetados por um determinado tipo de crime ambiental.

Apetres - Como você avalia a possibilidade das empresas associadas à Apetres desenvolverem programas voltados para a proteção da fauna?
Angela Branco - É muito positivo. Na verdade o apoio a programas de proteção, conservação ou preservação da fauna é um compromisso que uma empresa assume perante a sociedade. Compromisso de que está fazendo as coisas com responsabilidade. Ou seja, não está apenas cumprindo o que estabelece a lei. Vai além. Isso resulta numa melhor imagem do empreendimento. Mas o que é mais importante é que trata-se de um compromisso da empresa visando a melhoria da qualidade de vida.

Apetres - E isso já é uma realidade no Brasil?
Angela Branco - Infelizmente não. Até bons trabalhos na linha de conservação de animais são decorrentes da obrigação (grifo nosso). Nada além disso. Quando ocorre a necessidade de corte de verbas, por exemplo, os primeiros programas afetados são aqueles voltados para a fauna. Porém, o que anima, é que embora não existam empresas agindo com o mencionado compromisso, existem pessoas que fazem trabalhos voluntários de apoio à projetos de fauna. Isso já é alguma coisa.

Apetres - O que você acha das inúmeras dificuldades que empreendimentos encontram para ser licenciados em nome da fauna?
Angela Branco - Usar a fauna para inviabilizar projetos é errado. O que é preciso é levantar as responsabilidades e fazer com que cada ator assuma seus papéis. Os impactos sobre a fauna jamais vão ser compensados. Isso precisa ficar bem claro. Mas, este é o ônus que o homem paga para viver em um ambiente urbano como o das grandes cidades.