<%@LANGUAGE="VBSCRIPT" CODEPAGE="1252"%> <link href="estilo.css" rel="stylesheet" type="text/css"> <strong>Apetres</strong>

Política de Resíduos deve promover a inclusão dos catadores

De riso fácil, Roberto Laureano Rocha, presidente da Cooperativa de Reciclagem Unidos pelo Meio Ambiente (CRUMA), membro do Movimento Nacional dos Catadores e participante do “Fórum Lixo e Cidadania” pratica, talvez até sem saber, um dos mais modernos conceitos da cultura ambiental. Criador da CRUMA, projeta e trabalha para o seu crescimento em Poá, município da Região Metropolitana de São Paulo, sem esquecer de atuar em fóruns mais amplos que discutem a coleta seletiva, a política nacional de resíduos, a política estadual de resíduos e, é claro, a inserção dos catadores neste contexto. Ou seja, pensa globalmente e age localmente. Sobre a Política Nacional de Resíduos, ele é definitivo, ao dizer coisas como: “Uma política nacional de resíduos séria deve incorporar a coleta seletiva entre as suas diretrizes e deve ter entre os seus pontos basilares, a inclusão dos catadores de materiais como agentes importantes no processo”. A entrevista:

Apetres – Quando surgiu a CRUMA? Conte um pouco dessa história.
Roberto Laureano da Rocha - A cooperativa foi criada em 1997, por um grupo de desempregados e ex-presidiários, enfim de pessoas excluídas da sociedade, que decidiu se unir por uma questão de sobrevivência. No início as pessoas saiam para catar papel, mas não havia muita clareza. O negócio era catar materiais para levantar recursos para sobreviver. Daí surgiu a idéia de fazer uma cooperativa para organizar o trabalho. Hoje a CRUMA é composta por 20 catadores cooperados e outros tantos associados que fazem a catação, entregam seus materiais na cooperativa, recebem e na verdade estão se preparando parra ingressar na cooperativa.

Apetres - Como foi a evolução do trabalho depois da constituição da cooperativa? E hoje, como está estruturado o trabalho?
Roberto - Uma coisa que nos preocupava no início era como nós catadores, gente humilde, seríamos recebidos pela sociedade quando fossemos procurar as pessoas para pedir que entregassem os seus resíduos para a nossa cooperativa. Outra coisa também, era saber como as pessoas iriam tomar conhecimento da existência da cooperativa. Então, foi feito um trabalho de divulgação do nosso trabalho, com a divulgação de folhetos, inclusive, explicando o que é a CRUMA e qual era o seu objetivo. Hoje nós temos o Programa de Coleta Seletiva , implantado porta a porta, em quatorze bairros. Em um deles, o Bairro Alvorada, nós alcançamos 100% das residências. Foi um trabalho duro, de conscientização. A gente sempre deixa claro para as pessoas que elas não estão fazendo assistencialismo. Que elas estão colaborando com a cooperativa, que elas estão, de alguma forma, contribuindo com o meio ambiente e que elas têm também responsabilidades com relação ao lixo que geram.

Apetres – O trabalho no bairro Alvorada atinge quantas residências? E no total, qual o universo abrangido pela Cooperativa?
Roberto – No Alvorada atendemos 400 residências e no total estamos coletando em pelo menos 2400 casas, não é mesmo Wilson?
Wilson Secário – Estamos coletando em 2500 casas. Esse trabalho resulta entre 35 e 40 toneladas de materiais recolhidos por mês.

Apetres – Isso só os Cooperados?
Wilson Secário – Não, conta também com a coleta dos associados.

Apetres – E qual é o resultado econômico desse trabalho? E, como é feita a distribuição dos recursos?
Roberto – A nossa receita bruta gira em torno de seis mil reais por mês. Recentemente nós perdemos muito com a saída de um grande gerador de resíduos, uma rede de supermercados, do nosso rol de fornecedores de materiais. A distribuição da receita é feita após a retirada de 25% do valor bruto da renda, para fazer frente às despesas administrativas. Por mês, cada cooperado está tirando entre 250 e 300 reais. O catador associado recebe diariamente, assim que entrega o resultado do trabalho do dia.

Apetres - Mas isso pode ser melhorado não é mesmo?
Roberto – Sem dúvida. Nós precisamos contar com mais recursos para girar a cooperativa. Precisamos de capital de giro, precisamos de apoios. Mas também tem o seguinte, o capital não é a primeira palavra do nosso trabalho que tem muito de social, de resgate das pessoas. Contamos com apoios que patrocinam a alfabetização dos nossos cooperados e seus familiares. O nosso objetivo é tirar as pessoas da exclusão social.

Apetres – Fale um pouco sobre o problema causado pela saída da rede de supermercados. Existe algum trabalho destinado a resgatar esse fornecimento?
Roberto – Pois é. Essa rede de supermercados que entregava os seus materiais para a cooperativa passou a enviar todo o seu lixo para o sistema de coleta da prefeitura e isso resultou em perda de receita para nós. No momento acho difícil a retomada desse fornecimento. Dependemos de uma política pública da administração municipal que estimule essa prática. Hoje está cômodo para esse grande gerador entregar todo o seu lixo para o sistema municipal.

Apetres – Mas isso não implica em um desestímulo ao trabalho de vocês, não é mesmo?
Roberto – De jeito nenhum. Nosso objetivo é aumentar o raio da coleta seletiva porta a porta. Também já estamos fazendo a coleta seletiva nas quatorze escolas da rede municipal de ensino. Por isso, vai ser preciso aumentar a nossa infra estrutura, a nossa área de armazenagem dos materiais. Nós estabelecemos um convênio com a Prefeitura de Poá, que além do trabalho de coleta seletiva nas escolas, vai ceder uma área para a cooperativa. Além de servir para o trabalho de triagem e armazenagem dos materiais, o espaço vai contar também com uma área destinada ao trabalho de conscientização, educação ambiental. Vamos montar, inclusive, um museu de coisas interessantes encontradas no lixo, não é mesmo Wilson.
Wilson – É um museu de antigüidades que vai servir para o trabalho de educação ambiental.

Apetres – E no entender de vocês qual é o papel que a Apetres pode desempenhar junto à CRUMA?
Roberto – Além do apoio direto, acho que existe possibilidade de fazer parcerias importantes. Materiais que demoram muito para se decompor e servem para a reciclagem, não interessam aos aterros porque ocupam espaço e isso representa perda de dinheiro. Então, acho que é possível desenvolver um trabalho conjunto entre as empresas associadas da Apetres e as cooperativas de catadores. Nós somos um braço importante desse sistema todo. Podemos ajudar o Poder Público e as empresas responsáveis pelo destino final do lixo urbano. Nós não somos concorrentes. Podemos ser parceiros. Além disso, a Apetres pode apoiar ou realizar cursos e seminários voltados para catadores, por exemplo.

Apetres – E para fora dos horizontes de Poá, como é a atuação de vocês?
Roberto – Bem, nós participamos do Movimento Nacional dos Catadores. Em 2001 foi realizado em Brasília um Congresso Nacional onde foi estabelecida a “Carta de Brasília”, um documento de princípios da nossa profissão. Aliás, nós lutamos para a regulamentação da nossa categoria. O Ministério do Trabalho já considera os catadores uma “Ocupação Profissional”, o que é um avanço.

Apetres – E a institucionalização do cooperativismo como é que está?
Roberto – Pois é. A legislação existente está superada. Ela data de 1971 e esteve sempre voltada para o cooperativismo agrícola. Não comporta as novas modalidades de cooperativismo urbano. Então estamos trabalhando muito nisso junto à Secretaria Nacional de Economia Solidária, do Ministério do Trabalho. Além disso participamos do Fórum “Lixo e Cidadania” e das discussões da Política Nacional de Resíduos.

Apetres – Aliás, foi uma pena que o projeto de Política Nacional de Resíduos não tenha ido a plenário. Perdeu-se uma grande oportunidade, não?
Roberto – No caso do Projeto do Emerson Kapaz existiam alguns pontos com os quais a gente não concordava. Mas de fato existe uma lacuna e faz falta uma Política Pública para o assunto.

Apetres – O que vocês pensam sobre uma Política Nacional de Resíduos? O que ela deve contemplar na visão dos catadores, das cooperativas?
Roberto – Uma Política Nacional de Resíduos deve incorporar definitivamente a coleta seletiva como prática. Mas o que é mais importante é que ela inclua os catadores de materiais como agentes importantes desse processo. Outra coisa fundamental nas diretrizes de uma Política é a responsabilização de fabricantes pela disposição final de seus produtos após o consumo. Refiro-me a produtos como pilhas e baterias, pneus, embalagens tetra pack, entre outros.