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A Apetres recebeu em seu escritório a educadora ambiental Mirian Rosiris Mendes. As opiniões da Coordenadora de Educação Ambiental da Prefeitura Municipal de Suzano sobre o papel da Educação Ambiental na conscientização sobre aspectos relacionados ao meio ambiente e, entre eles, a questão do lixo. O trabalho que está sendo desenvolvido nas escolas da rede municipal de ensino daquele município e também as expectativas frente aos trabalhos desenvolvidos pela Apetres e as empresas associadas.
Educadora ambiental defende reciclagem
A educadora ambiental Mirian Rosiris Mendes, da Prefeitura Municipal de Suzano defende a coleta seletiva e a reciclagem como aqueles meios para dar conta de dispor o lixo urbano. Reconhece, porém, que as Centrais de Tratamento de Resíduos, empresas deste emergente segmento da indústria do saneamento ambiental desempenham importantes papéis, quando esse trabalho é bem feito. Nesta entrevista ela conta um pouco do trabalho que desenvolve na Rede Municipal de Ensino da cidade de Suzano. Mirian é formada em Relações Públicas e Pedagogia, tem especialização em Educação Ambiental , pela Faculdade de Saúde Pública da USP, onde elaborou a monografia "Catadores de Materiais Reaproveitáveis: uma questão socioambiental", o que dá bem conta do seu interesse em relação aos assuntos relativos ao lixo. Entrevista concedida ao jornalista Paulo Antunes.
Apetres - Faça uma breve apresentação
do trabalho de educação ambiental que está sendo desenvolvido
na rede municipal de ensino da Prefeitura de Suzano.
Mirian Rosiris Mendes - A Lei que estabeleceu a Política
Nacional da Educação Ambiental divide a Educação
Ambiental em duas categorias. A Educação Ambiental Formal,
que é desenvolvida dentro do sistema de ensino e é onde está
situado o nosso trabalho. E a Educação Ambiental Não
- Formal, que é desenvolvida pelas comunidades, empresas e com diversos
outros atores sociais. Tem-se também a Educação Ambiental
Informal que é aquela feita pelos meios de comunicação,
que segundo a lei têm obrigação de promover e divulgar
ações de conscientização para a educação
ambiental. Por outro lado, o Governo Federal, por meio do Ministério
da Educação criou os Parâmetros Curriculares Nacionais
que diz que existem diversos temas que devem ser considerados transversais
em toda a grade curricular, uma vez que, individualmente, as disciplinas
não são capazes de dar conta de abordá-los. Além
do mais são temas com abordagem social e não devem ser formalizados
como disciplinas tradicionais.
Apetres - E quais são esses temas? Pelo que você
está falando a educação ambiental está nesse
rol, não?
Mirian - Sim , está nesse rol...Os temas transversais
são: meio ambiente, saúde, orientação sexual,
pluralidade cultural , ética e trabalho e consumo.
Apetres - Está bem, e frente a esse contexto qual
é o trabalho que está sendo desenvolvido na Prefeitura de
Suzano?
Mirian - O nosso trabalho lá é voltado para
a formação dos professores e assistentes pedagógicos.
Desenvolvemos Oficinas, cursos, palestras para esses profissionais do ensino
que por sua vez devem trabalhar com a educação ambiental com
os alunos. O tema geral do curso...
Apetres - Curso ou Oficina? Formação do
professor em educação ambiental com oficinas?
Mirian - Atualmente Oficina, com 30 horas , intitulada
- "Teorias e Práticas da Educação Ambiental".
Há abordagem teórica, atividades práticas e visitas
técnicas. É claro que não se pretende esgotar o assunto
com esse treinamento que deve ser continuado e progressivo.
Apetres - E quais são os temas abordados nestas
Oficinas?
Mirian - Água (escassez, uso racional, mananciais,
formas de tratamento), energia, resíduos sólidos (produção,
redução, reutilização e reciclagem) entre outros.
O importante é entender que a educação ambiental é
um processo e se efetua por meio de uma educação política
que possibilita a aquisição de conhecimentos, de habilidades
e formação de atitudes, predispondo ações favoráveis
e criação de valores, mudanças de comportamento que
devem ser transformadas em prática de cidadania, onde os indivíduos
possam conhecer seus direitos e deveres e aí sim, terem condições
para transformar a realidade onde estão inseridos.
Apetres - E qual é o público a ser atingido?
Mirian - Suzano possui sessenta escolas na rede municipal.
São 700 professores. O programa teve início em 2001 e já
passaram por palestras, oficinas e cursos, pelo menos uns 500 educadores.
Em 2001 tivemos concurso público e muitos professores saíram
e outros entraram para o sistema de ensino , e isso atrapalha um pouco ,
pois processo deve ser contínuo.
Apetres - E como é feita a verificação
da eficácia do programa? O que queremos saber é como o sistema
de educação fica sabendo que o treinamento foi eficiente,
motivou o professor e chegou ao aluno. E, mais ainda, promoveu algum resultado
positivo neste aluno?
Mirian - Existem diversas maneiras de aferir os resultados.
Relatórios, visitas às escolas, questionários. A metodologia
pode não ser 100% confiável, pois medir a aquisição
de valores é difícil . Mas é possível verificar
se o programa alcança bons resultados.
Apetres - Dê algum exemplo.
Mirian - Existe uma história interessante. Um grupo
de alunos da 4ª Série, quando fez uma visita a APA do Tietê,
dentro de um programa de plantio de árvores na várzea do rio,
presenciou a queda de um cachorro no rio. O objetivo da atividade era realizar
o plantio e ver "in loco" a APA , mas a cena com o cachorro chamou
mais a atenção. A cena foi dramática. Não porque
o cachorro não soubesse nadar, mas porque ele não conseguia
sair do rio poluído por causa de uma grande quantidade de aguapés...
o cachorro se enroscava nos aguapés e as pessoas tentavam ajudar
o animal a sair do rio e não conseguiam. Resultado, os alunos chegaram
à escola revoltados e questionaram aos professores o que estava acontecendo
com o rio., o porquê de tantos aguapés.... Ou seja, mesmo que
os professores não quisessem abordar o assunto, não seria
possível ignorar, pois quando o aluno quer entender, quer saber,
o professor deve trazer os esclarecimentos desejados.Os professores trabalharam
com essa questão com os alunos, que realizaram várias atividades
- desde desenhos , leituras à respeito de poluição
do rio e produziram textos interessantíssimos ... Enfim, isso é
uma demonstração e nos deixa muito satisfeitos com o trabalho
de educação ambiental.
Apetres - E a questão do lixo, como é tratada?
Mirian - Pois é...é necessário que
as pessoas entendam sobre o assunto. Todo mundo acha que ao colocar o lixo
na porta de casa resolveu o problema dos seus resíduos. Mas ele não
sabe que aquele lixo vai custar caro para ser disposto, que se ele for jogado
de qualquer maneira vai causar poluição. Enfim, não
há consciência do que é feito com o lixo depois que
ele sai da porta de nossas casas. E isso precisa ser muito trabalhado para
resolver os problemas causados por esse lixo.
Apetres - E a educadora ambiental Mirian Mendes o que
pensa sobre a disposição do lixo?
Mirian - Eu entendo que sempre vai haver conflito, principalmente
nos grandes centros urbanos. A quantidade de áreas para construção
de aterros sanitários está reduzida e aumenta cada vez mais
a quantidade de resíduos produzidos pelo homem. Acho que é
preciso minimizar a geração de resíduos e isso não
deve caber apenas à população, mas também às
empresas que devem ser obrigadas, ao menos, a dar conta de criarem embalagens
que minimizem o possível os impactos causados ao meio ambiente.
Apetres - Como a você avalia o papel de Centrais
de Tratamento de Resíduos como as representadas pela Apetres?
Mirian - Eu conheci uma das empresas associadas da Apetres:
a Pajoan. Ela está localizada em Itaquaquecetuba, que é um
município próximo de Suzano e, inclusive, recebe o lixo da
nossa cidade. Realmente eu e outros professores que visitamos o aterro ficamos
impressionados de ver o resultado de todo o lixo que é produzido
pela sociedade e que precisa ser colocado em algum lugar e o melhor é
que a sua disposição final seja realizada adequadamente. Então,
é aquela história: já que o problema do lixo é
um fato, o melhor é que existam instalações que promovam
a disposição adequada do lixo, para reduzir os impactos, não
é mesmo? Mas...
Apetres - Mas...
Mirian - Eu defendo que a reciclagem deve ser mais incentivada.
Além de ser um fator relevante do ponto de vista ambiental, também
é importante do ponto de vista econômico. Quanto mais materiais
são destinados para a reciclagem, sobram mais espaços nos
aterros para a disposição daqueles resíduos que podem
e devem ser ali colocados.
Apetres - Existem outras formas de tratamento de resíduos
que a educadora ambiental considera satisfatórias?
Mirian - Olha, eu sei que existe a incineração.
Eu não concordo muito não, mas parece que para alguns tipos
de resíduos, como por exemplo, os resíduos hospitalares, esta
é a melhor solução. Mas eu insisto. Ainda penso na
reciclagem e na compostagem , para a parte orgânica. Não vou
dizer que esta é a posição de todos os educadores ambientais.
Mas, o que é certo é que sempre vai existir um dano em todo
e qualquer sistema de disposição e tratamento do lixo. Quanto
às centrais, apenas para reforçar, quando elas fazem o seu
trabalho corretamente, ou seja, quando respeitam as diretrizes ambientais,
podemos dizer que elas são viáveis. Dá para confiar.
Porém, não dá para esquecer que essa disposição
custa muito caro para as prefeituras e em última instância
para os cidadãos. Por isso é preciso trabalhar muito para
que a geração de resíduos seja minimizada e os cidadãos
não arquem com taxas e o meio ambiente não sofra os impactos
desta geração.
